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Programada para ser concluída nesta quarta-feira (2), a venda dos portos controlados pela honconguesa CK Hutchison no Panamá deve atrasar. É que a Administração Estatal de Regulamentação de Mercado da China resolveu abrir uma investigação sobre o acordo, buscando indícios de violações a leis anti-monopólio.
Entenda: a Hutchison, sediada em Hong Kong e controlada pelo bilionário Li Ka-shing, administra dois portos em ambas as pontas do canal do Panamá.
A companhia tinha anunciado que venderia todos os seus ativos à americana Black Rock após pressões de Donald Trump, que, desde o início deste mandato, fala em retomar o canal à força devido a um suposto “controle chinês”.
Contudo, o negócio avaliado em US$ 23 bilhões (cerca de R$ 131 bilhões) atraiu a ira de Pequim. Vários jornais estatais filiados ao Partido Comunista chamaram o movimento de “traição ao povo chinês” e criticaram abertamente a empresa (que também controla dezenas de outros portos no México, Ásia e Europa).
Segundo o Wall Street Journal, o próprio Xi Jinping estaria “furioso” com a venda e teria ordenado que autoridades do Ministério do Comércio estudassem formas de revertê-la.
Hutchison e Black Rock se dizem otimistas sobre as perspectivas do negócio, mas por enquanto, a certeza maior é de que a venda não deve ser concretizada nesta quarta, como inicialmente previsto.
Por que importa: não está claro como Pequim poderia brecar esta venda. Isso porque os ativos a serem vendidos não estão geograficamente localizados em território chinês e qualquer tentativa de ampliar a regulamentação atual poderia resultar em maior insegurança jurídica no momento em que o governo trabalha para atrair investimento estrangeiro.
Politicamente, porém, a conclusão da venda respinga na imagem de Xi, que, ao internalizar o tema, fez dele uma prioridade para sua própria liderança a nível doméstico.
Pare para ver
“Enquanto as lágrimas escorrem em 1988 na Escola de Mahjong Portland Street”, tela do artista honconguês Chow Chun Fai. Ele é notório por retratar a transformação urbana da cidade chinesa ao longo dos anos e você pode ler mais sobre sua carreira aqui (em inglês).
O que também importa
O FBI e o Departamento de Segurança Interna dos EUA fizeram buscas nas casas do pesquisador Wang Xiaofeng, professor da Universidade de Indiana, reacendendo temores de perseguição racial a cientistas de origem chinesa. A operação não teve motivos divulgados. O caso remete à “China Initiative”, política da era Trump que investigou milhares de acadêmicos por supostos laços com Pequim —criticada por discriminação e abandonada em 2022. Segundo o South China Morning Post, Wang é especialista em segurança digital e privacidade de dados biomédicos, e não há acusações formais contra ele.
A mídia estatal chinesa afirmou nessa segunda (31) que China, Japão e Coreia do Sul teriam concordado em responder conjuntamente às tarifas dos EUA. Segundo Pequim, os três lados discutiram cooperação em cadeias de suprimento e controle de exportações. Também prometeram acelerar negociações por um acordo de livre comércio trilateral. O encontro ocorreu às vésperas do novo pacote tarifário prometido por Donald Trump, que entra em vigor na quarta (2). Seul, porém, considerou a afirmação chinesa “um tanto exagerada” sem detalhar o que foi de fato acordado entre os três países.
Pequim lançou nesta terça (1º) exercícios militares em torno de Taiwan, em resposta ao que chamou de “provocação separatista” após o líder taiwanês Lai Ching-te dizer que a ilha é um “país soberano”. Taiwan respondeu enviando navios de guerra após embarcações chinesas se aproximarem de sua zona contígua, a 44 quilômetros da costa. O Ministério da Defesa taiwanês condenou a ação e disse que só os taiwaneses podem decidir seu futuro.
Fique de olho
A China se prepara para lançar seu primeiro título verde soberano, informou a Bloomberg na segunda (31).
- Títulos soberanos verdes são ativos de dívida pública emitidos com o objetivo de financiar obras sustentáveis.
A manobra, se confirmada, acontecerá em um momento em que emissões de títulos verdes de economias emergentes (excluindo China) caíram cerca de 33% para US$ 8 bilhões (cerca de R$ 46 bi) em 2025, o início de ano mais fraco desde 2022
Entenda: o governo chinês busca captar 6 bilhões de yuans (US$ 830 milhões, ou cerca de R$ 4,8 bilhões) em Londres, estrategicamente escolhida pela forte demanda europeia por produtos financeiros ambientais.
A decisão de listar seus títulos verdes na Inglaterra, em vez dos EUA, também sinaliza sua ambição de assumir maior protagonismo na diplomacia climática global.
Por que importa: difícil ver como a ideia pode decolar no curto-prazo, já que a saída dos EUA do Acordo de Paris e a quase paralisação de emissões corporativas destes títulos por empresas americanas enfraqueceram significativamente o mercado.
Várias companhias norte-americanas também têm evitado divulgar seus investimentos ambientais para escapar da crescente retórica anti-ESG do governo republicano.
Por outro lado, um potencial sucesso chinês pode reanimar investidores e excluir os americanos da seara, avançando ainda o objetivo da China de liderar o setor de sustentabilidade.
Para ir a fundo
Estão abertas as inscrições para o curso “Geopolítica Global e Trump: EUA, Rússia, UE e China no Tabuleiro da Guerra” da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Ministrado pelo coordenador de geopolítica da Observa China, Alexandre Coelho, o treinamento começa em maio. Mais informações aqui. (pago, em português)
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) abriu seleção para interessados em pesquisar sobre a economia, sociedade e relações internacionais da China. Os aprovados receberão bolsa por 12 meses, com possibilidade de renovação. Mais informações aqui. (gratuito, em português)
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