O cenário político francês passa por mais uma turbulência. Marine Le Pen, deputada e pré-candidata à presidência do país nas eleições de 2027, foi condenada por desvio de verbas do Parlamento Europeu, onde foi eurodeputada entre 2004 e 2017, para o seu partido, a Reunião Nacional (RN).
A pena inclui quatro anos de prisão (dos quais dois estão suspensos e dois serão cumpridos em prisão domiciliar), multa de € 100 mil (R$ 624 mil) e proibição de concorrer a cargos públicos por cinco anos. Mais oito eurodeputados da RN também foram condenados no caso. No total, estima-se um desfalque de cerca de € 2,9 milhões (R$ 18 milhões).
Ainda cabe recurso da defesa, e, se lograr vitória, ela poderá participar do pleito, para o qual é favorita nas pesquisas. Mesmo assim, é um baque para a RN, sigla de ultradireita que detém o maior número de assentos na Assembleia Nacional —123 de 577.
A legenda vinha avançando de maneira rápida também no panorama continental. Em junho de 2024, o grupo político do qual faz parte no Parlamento Europeu, o Identidade e Democracia (ID), passou de 49 cadeiras para para 84 nas eleições da entidade —em julho, o ID mudou de nome para Patriotas pela Europa (PfE). Já a coligação Renew, que conta com o partido de Emmanuel Macron, o Renascimento, perdeu 21 assentos e ficou com 77.
Com o ascensão da ultradireita, o presidente francês dissolveu a Assembleia Nacional e convocou novo pleito. Nele, a coalização de Macron obteve 168 assentos, sendo 102 para o seu partido; RN e aliados, 143, com 123 só da legenda de Le Pen. Na frente da disputa, com 182, está a Nova Frente Popular (NFP), que une extremistas e moderados de esquerda.
Ainda é incerto, de todo modo, o impacto da condenação de Le Pen para a RN. Jordan Bardella, líder da sigla, é o mais cotado para substituí-la, se necessário.
Jovem e ativo nas redes sociais, tende a agradar às novas gerações, mas críticos apontam inexperiência e parco conhecimento sobre administração pública.
Le Pen e sua sigla afirmam que se trata de perseguição política, versão repetida por Donald Trump e Elon Musk; os governos russo, turco e italiano também manifestaram apoio a ela.
Países autoritários tendem a usar o Poder Judiciário para abafar oposicionistas. Esse não é, contudo, o caso da França, uma democracia liberal consolidada.
Num contexto europeu e global já tenso, os franceses correm o risco de ver acirrados embates ideológicos que não raro aviltam o debate político.
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