quinta-feira , 3 abril 2025
| Cidade Manchete
Lar Política Evangélicos nunca pediram perdão por apoiar o golpe – 01/04/2025 – Cotidiano
Política

Evangélicos nunca pediram perdão por apoiar o golpe – 01/04/2025 – Cotidiano

Meu pai, Eródoto José Rodrigues, já morreu; minha mãe, Glícia Maria Gondim Rodrigues, também. Parece que foi ontem, e os dois continuam protagonistas principais de minhas memórias no dia 31 de março. Depois de escrever sobre o filme “Ainda Estou Aqui”, retorno aos temas do golpe e da ditadura.

Havia tensão em todo o país. Mamãe, grávida de gêmeos, sentia-se pesada. Papai, articulado com os eventos políticos, acordou preocupado, pois havia sido convocado a se apresentar na Base Aérea de Fortaleza. Em cumprimento de seus deveres militares, saiu de casa por volta das 17h para voltar só um ano depois.

Naquela madrugada, já no 1º de abril de 1964 (Dia da Mentira, diga-se de passagem), tropas do Exército se mobilizaram e em horas o país acordou numa ditadura. Papai, sentindo que deveria honrar a Constituição, amotinou-se com outros colegas de farda, foi preso e transferido, incomunicável, clandestinamente, para a Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro.

Daí em diante, mamãe teve uma gravidez terrível que terminou com a perda da menina gêmea.

Eu também nunca mais fui o mesmo. Nossa família nuclear se dissolveu porque nos vimos obrigados a morar na casa de vila de meus avós maternos. Os anos se passaram sob uma nuvem de medo.

Em dezembro de 1968, no AI-5, lá estávamos de novo cara a cara com o terror. Papai se viu obrigado a fugir e se esconder em uma chácara. Para não incriminá-lo ainda mais, queimamos seus livros de sociologia e ciências políticas.

É preciso esclarecer aos jovens: um golpe de Estado só vinga com um acordo tácito da imprensa (Rede Tupi, Globo etc.), dos setores mais fortes da economia (Banco Real, Ultragaz), das Forças Armadas (Exército, Aeronáutica e Marinha) e da religião.

Como pastor em uma comunidade cristã, compete a mim não permitir que esqueçam: sem o concurso das igrejas católica e evangélica, o golpe seria mesa faltando uma perna.

Não devo me intrometer na Igreja Católica; que padres e freis denunciem a vergonhosa adesão inicial de seus inúmeros sacerdotes à ditadura.

Eu me sinto na obrigação de falar dos evangélicos —que foram muitos, mas menciono dois:

1) Eneas Tognini, pastor batista renovado, que convocou um jejum em suporte aos golpistas alegando o perigo de o Brasil se tornar comunista;

2) Boanerges Ribeiro, que mobilizou alta cúpula da Igreja Presbiteriana, não só para caguetar pastores “subversivos” mas para permitir que olheiros do regime se infiltrassem no Seminário Presbiteriano de Campinas e monitorassem os debates que aconteciam ali.

Resultado: pastores foram perseguidos e presos; muitos perderam cargos e amargaram o exílio.

Os católicos adquiriram consciência democrática e a Igreja Católica fez uma “mea culpa”; padres e bispos abandonaram a aventura ditatorial, mudaram de lado e passaram a defender pessoas perseguidas e torturadas.

Já os evangélicos nunca pediram perdão. Eneas Tognini morreu incensado como um santo homem de Deus e Boanerges Ribeiro se tornou ícone de um neocalvinismo ainda mais reacionário.

Sinto tristeza e vergonha de saber que muitos ainda se recusam a aprender as lições da história.

Fonte

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Política

TV de Sarney leva bronca da Globo; entenda – 03/04/2025 – Outro Canal

Aracaju A Globo voltou a ter problemas com emissoras do Nordeste que...

Política

Felipe Neto diz que é pré-candidato à Presidência em 2026 – 03/04/2025 – Poder

O influenciador digital Felipe Neto publicou um vídeo em suas redes sociais...

Política

OAB pede ao STF presença de responsável por prerrogativas – 03/04/2025 – Painel

A OAB pediu ao presidente da Primeira Turma do STF, ministro Cristiano...

Política

Chuva forte preocupa organizadores de ato de Bolsonaro – 03/04/2025 – Painel

A chuva se tornou uma preocupação para os organizadores da manifestação convocada...