O anúncio feito por Donald Trump sobre um novo “tarifaço” impressiona entre outras coisas pela simplicidade extrema de seu cálculo. As tarifas foram baseadas no déficit comercial dividido pelo total das importações, multiplicado por cem —com um piso mínimo de 10%.
Desprovida de uma análise detalhada ou estratégia, o cálculo desconsidera variáveis, como a complexidade das cadeias globais de suprimento, riscos de retaliações comerciais, efeitos cambiais e mesmo o nível de tarifas dos demais países. Mais próxima de um cálculo de guardanapo do que de uma política econômica, o método chama atenção pelo seu amadorismo. Por trás desse cálculo superficial, porém, há uma ideologia bem estruturada e já conhecida por aqui.
A visão de Trump sobre comércio internacional como um jogo de soma zero —onde alguém precisa perder para outro ganhar— é bastante familiar para nós, latino-americanos. Curiosamente, Trump recupera teorias próximas às defendidas pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), na metade do século passado.
Trump e a Cepal compartilham uma percepção de déficits comerciais como sintomas diretos de exploração econômica e fraqueza estrutural. Enquanto a Cepal interpretava déficits como evidências da dependência da periferia em relação ao centro industrializado, Trump afirma que déficits são sinais claros de que outras nações “aproveitam-se” dos Estados Unidos. Ambos propõem, então, a proteção agressiva da indústria nacional por meio de tarifas alfandegárias, apresentadas como ferramentas para garantir soberania econômica e orgulho nacional.
Essas ideias já foram amplamente testadas na América Latina, com resultados notoriamente negativos. No Brasil, políticas protecionistas no setor automotivo elevaram os preços dos veículos locais em até 30% em relação aos concorrentes internacionais, comprometendo severamente a competitividade, qualidade e o acesso da população a esses produtos.
Na Argentina, a proteção à indústria eletrônica resultou em produtos caros e de baixa qualidade, alimentando contrabando generalizado e importações pelo mercado paralelo, com aumentos médios de preço em cerca de 4%, sem melhorias correspondentes à qualidade.
Já no México, décadas de proteção à indústria têxtil levaram à obsolescência tecnológica e à incapacidade de competir internacionalmente quando o mercado se abriu, resultando em queda de 14% nas exportações e perda significativa de empregos entre 2004 e 2007 —com outras indústrias se beneficiando da abertura.
Não deixa de ser irônico que Trump tenha escolhido justamente o simbólico ‘Dia da Libertação’ para anunciar uma medida que restringe o livre comércio, reduzindo assim as liberdades econômicas dos próprios americanos. É também uma retórica política que se apropria constantemente da linguagem da liberdade para justificar ações protecionistas. As consequências concretas são claras: aumento da inflação, menor acesso da população a bens e serviços e potenciais retaliações comerciais contra empresas americanas no mercado global.
Que a experiência latino-americana sirva de alerta: políticas econômicas isolacionistas frequentemente conduzem à estagnação e não ao crescimento econômico sustentável e inclusivo. A riqueza das nações nasce do comércio aberto, da inovação constante e da competitividade —lições que a história já comprovou com números robustos, mas que Trump parece determinado a ignorar.
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