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Lula condecora cacique Raoni em aldeia de MT – 04/04/2025 – Ambiente

O presidente Lula (PT) chegou no início da tarde desta sexta-feira (4) à aldeia Piaraçu, na Terra Indígena (TI) Capoto/Jarina, em Mato Grosso, para um encontro com o cacique Raoni Metuktire. Raoni é o líder indígena mais conhecido e respeitado do país e foi um dos oito brasileiros que subiram a rampa do Palácio do Planalto na posse de Lula em 2023.

No início da visita, Lula e Raoni fizeram uma reunião privada. Por volta de 13h30, o presidente condecorou o cacique Raoni com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito, concedida a cidadãos brasileiros por serviços de destaque prestados ao país. Em troca, foi oferecido a Lula um colar feito de conchas, usado pelos indígenas kayapós em celebrações.

“É um encontro histórico, que marca a reunião de duas grandes lideranças globais”, disse Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas. “Hoje, o presidente Lula vem subir a rampa na terra do cacique Raoni.”

Além de Sonia, acompanharam a visita a primeira-dama, Janja, a ministra de Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, e a ministra da Cultura, Margareth Menezes.

Em discurso, Raoni cobrou Lula para que não seja feita a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. “O senhor está pensando no petróleo que está debaixo do mar, mas eu penso que não [deve ser assim]. Essas coisas, como estão, garantem que tenhamos o meio ambiente e a Terra com menos poluição e menos aquecimento. Podemos ter consequências muito grandes se não pararmos”, disse, em língua kayapó.

O cacique também pediu a Lula que pense em um sucessor alinhado à causa indígena. “Não quero que entremos em contradição, mas que façamos um trabalho que beneficie os povos indígenas do Brasil. Eu fiz uma cobrança para que ele [Lula] não repita erros que já fez na gestão anterior. Presidente, daqui para a frente, vamos trabalhar certo, para que as pessoas sejam felizes com o nosso trabalho”, afirmou.

O líder indígena disse ainda que, em conversa com Lula, pediu que fossem revisados os limites do entorno da TI Capoto/Jarina. “Estou cobrando para que ele faça uma limpeza, um novo limite, para que nossos filhos e netos possam usufruir desta terra”, concluiu.

“Já viajei muito pelo mundo, já encontrei com os presidentes mais importantes do planeta, mas nenhuma dessas pessoas que encontrei, ou palácios que visitei, é mais importante do que a visita que estou fazendo aos povos indígenas do Xingu”, disse Lula em seu discurso.

“Não existe na face da Terra nenhum homem, nenhum presidente, nenhum rei mais representativo do que Raoni. Ele é uma liderança que inspira paz, sabedoria ancestral e profundo conhecimento sobre as necessidades da terra e a relação do homem com a natureza. Por isso, atrai atenção e apreço de tanta gente em todo o mundo. Anônimos, intelectuais, celebridades nacionais e internacionais”, completou

Segundo o presidente, a visita serviu para homenagens, mas também para ouvir demandas dos indígenas. “Sem a proteção dos povos indígenas, a proteção das florestas e dos rios, a crise climática traria eventos ainda mais extremos, de secas e inundações para toda a população brasileira, sem exceção”, disse.

Lula afirmou também que os direitos dos indígenas são prioridade do governo. “Vocês são fundamentais para atingirmos a meta de zerarmos o desmatamento na amazônia até 2030”, declarou.

O evento incluiu a presença de outras lideranças da bacia do rio Xingu. A partida do presidente e do grupo que o acompanha deve acontecer às 19h50, em direção a São Paulo.

Como a Folha antecipou, os indígenas planejaram entregar a Lula uma carta no evento com uma série de demandas ligadas à proteção da região. A articulação foi assinada por 48 comunidades indígenas e ribeirinhas, e cinco organizações da sociedade civil que atuam na região da bacia do Xingu.

A TI é referência na luta contra o desmatamento e contrasta com os entornos dominados pelo garimpo ilegal e a produção agrícola. Dados oficiais apontam que apenas 0,15% do território de Capoto/Jarina foi desmatado entre 2008 e 2024.

No entanto, o restante do estado teve cerca de 33 mil km² de áreas degradadas de janeiro a outubro de 2024, segundo o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia). O valor representa um aumento de 187% se comparado ao mesmo período em 2017, último pico de degradação.

Na última semana, em entrevista à AFP, o cacique adiantou que pediria a Lula para deixar de apoiar a exploração de petróleo na margem equatorial e para demarcar mais terras indígenas.

A carta também cita os incêndios florestais. De 2023 a 2024, o aumento de queimadas na bacia do Xingu foi de 353%. No território indígena do Xingu, especificamente, a alta foi de 124%, enquanto a Terra Indígena Kayapó sofreu com o acréscimo de 1.886% em florestas perdidas para o fogo.

Durante o primeiro mandato do petista, em 2003, Raoni advogou contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, àquela época em fase de planejamento. A usina foi inaugurada em 2011, já no mandato de Dilma Rousseff (PT).

Em episódio mais recente, em 2023, o cacique convidou Lula para o evento Chamado do Cacique Raoni, que reuniu mais de 700 pessoas na aldeia Piaraçu para discutir o marco temporal.

O presidente acabara de realizar uma cirurgia no quadril e não compareceu, enviando em seu lugar a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. Na mesma semana, no entanto, Lula foi à festa do senador Randolfe Rodrigues (sem partido) em Brasília.

À AFP, o cacique afirmou que permitir a exploração de petróleo na Amazônia seria como “repetir erros do passado”, se referindo a Belo Monte, e se posicionou contra o projeto de exploração da Bacia Foz do Amazonas. A construção da Ferrogrão –ferrovia que ligará Sinop (MT) a Miritituba (MT)– também é uma de suas preocupações.

Em setembro de 2024, Raoni disse à Folha que “muitas coisas melhoraram” para os indígenas e o ambiente com a troca de Bolsonaro por Lula. No entanto, afirmou que o governo ainda precisava avançar na demarcação de terras indígenas.

Em outubro do ano passado, o líder indígena foi a Brasília em uma tentativa de ser recebido pelo presidente. Na ocasião, esperou por cerca de 20 minutos no saguão do Planalto antes de ter a confirmação de que o encontro não aconteceria.

Trajetória

Nascido na década de 1930 (a data exata não é conhecida) na aldeia Krajmopyjakare, no nordeste de Mato Grosso, Raoni Metuktire passou anos vivendo como nômade junto aos indígenas kayapós. Teve o primeiro contato com a língua portuguesa em 1954 e, desde então, é ativista pela proteção das florestas e dos modos de vida indígenas.

Em 1984, o cacique conseguiu a demarcação de 15 km de terras indígenas em negociação com o então ministro do Interior, Mario Andreazza. Também participou da Assembleia Constituinte de 1988, levando dezenas de kayapós a Brasília para pressionar por uma Constituição que protegesse os povos originários.

Já recebeu títulos como o de Membro Honorário da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), em 2021, e de cavaleiro da Legião de Honra da França, em 2025. Também foi indicado ao Nobel da Paz em 2020.

Visita de Hollywood

Ainda nesta semana, o cacique recebeu uma visita da atriz americana Angelina Jolie. Ela viajou à aldeia na última quarta-feira (2), com o apoio da organização ambiental Re:wild, fundada por cientistas e pelo ator Leonardo DiCaprio. Imagens publicadas por um fã-clube mostram Jolie ao lado do cacique.

O motivo oficial da presença da estrela de cinema e ativista social na aldeia não foi divulgado.

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