“Eu não pude mostrar imagens do Lula falando que o pobre coitado rouba um celular para tomar uma cervejinha.” “Eu não pude mostrar imagens do Lula com gorro do CPX na cabeça. Porque eu me reuni com embaixadores aqui. Ele foi no Morro do Alemão se reunir com líderes comunitários que só são eleitos com o apoio do tráfico.”
Em menos de um minuto, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) repetiu dois conteúdos de desinformação que viralizaram na campanha eleitoral de 2022 ao comentar, nesta quarta-feira (26), a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de torná-lo réu.
A primeira mentira, a frase citando roubo de celular e cerveja, começou a circular ainda em 2021. Mas, na realidade, o post viral usava trechos editados de uma entrevista de Lula (PT), unindo duas frases que ele havia dito em contextos diferentes a uma rádio universitária de Pernambuco em 2017.
Questionado sobre causas da violência, Lula respondeu: “É uma coisa que está intimamente ligada. Ou seja, o cidadão teve acesso a um bem material, a uma casinha, a um emprego, e de repente o cara perde tudo. Então, vira uma indústria de roubar celular. Para que ele rouba celular? Para vender, para ganhar um dinheirinho. Eu penso que essa violência que está em Pernambuco é causada pela desesperança”.
Em outro momento da entrevista, ele usa o exemplo do futebol ao comentar o ódio na sociedade: “É preciso distensionar para a sociedade perceber que a torcida do Santa Cruz e do Sport não são inimigas. São adversárias durante o jogo, depois vão para o bar tomar cerveja juntos. E ainda deixam o pessoal do Náutico batendo palma do lado”.
O outro boato mencionado nesta quarta por Bolsonaro é sobre o “gorro do CPX”, sigla associada de forma falsa ao tráfico de drogas. Como a Folha mostrou, o deputado federal Mário Frias (PL) foi um dos que, em 2022, compartilhou post dizendo que “CPX” —inscrição de boné usado por Lula em evento no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro— significava “cupinxa, parceiro de crime” e “abreviação utilizada pela facção”. A palavra correta, “cupincha”, com “ch”, é usada para se referir a um parceiro e, diferentemente do que viralizou, CPX é a abreviação da palavra “complexo”, nome dado a um conjuntos de favelas.
Na época, Rene Silva, líder comunitário e um dos organizadores da visita do petista ao morro do Alemão, publicou em rede social que a associação feita por bolsonaristas era “criminosa”.
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