Carro-chefe do turismo gastronômico em Gramado (RS), o setor de chocolates artesanais está otimista para a Páscoa deste ano, apesar dos impactos do aumento no preço da matéria-prima na produção. Segundo dados da Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos), o preço do cacau subiu 189% em 2024.
“As empresas terão que ser criativas para superar a forte crise do cacau”, disse João Teixeira, diretor executivo da Achoco (Associação dos Chocolateiros de Gramado). Dentre as soluções encontradas, estão chocolates menores e readequações internas.
Teixeira projeta um crescimento de 10% na produção de chocolates para a Páscoa deste ano, superando as 700 toneladas. As boas expectativas de vendas são impulsionadas pela previsão de aumento do turismo na região.
“O que leva a essa expectativa positiva é termos dois feriados juntos e uma Páscoa mais tardia, com um clima mais ameno já confirmado”, afirmou Teixeira. O feriado de Tiradentes cai em 21 de abril, na segunda-feira após o domingo de Páscoa.
A maior parte do cacau utilizado em Gramado é oriundo da Bahia, maior produtor nacional. A Achoco prevê preços acima da média ao longo do ano e ainda em 2026 devido a uma alta mundial do grão de cacau, que tem preço cotado internacionalmente.
A razão é a oferta reduzida na África ocidental, especialmente na Costa do Marfim e em Gana, os dois maiores produtores de cacau do mundo. Juntos, esses países são responsáveis por metade da produção global.
“Os chocolateiros, de forma geral, estão operando com margens de lucro mais reduzidas”, explica Tiago Cardoso, diretor de marketing da Florybal.
Projetando um aumento de vendas próximo aos 10%, a Florybal deixou de lado a tradição de investir em ovos de chocolate grandes, alguns de até 2,5 kg, para dar espaço a produtos menores.
“O consumidor está com o poder aquisitivo mais limitado. Muitos produtos subiram de preço no mercado, não apenas o chocolate”, diz Cardoso. “Estamos projetando um crescimento mais condizente com a realidade.”
A Páscoa no fim de abril impulsiona o otimismo, devido ao tempo extra para as vendas. “No ano passado, a data caiu muito cedo e coincidiu com o período de compras escolares”, explica Cardoso.
Ele também destaca um benefício do governo estadual, que reduziu de 17% para 12% o crédito presumido de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) para fabricantes de chocolate artesanal na região das Hortênsias. “Não é muito, comparado ao aumento do preço do cacau, mas já ajuda.”
De acordo com Maurício Weiand, CEO da Chocolates Planalto, o aumento no preço do cacau levou os consumidores a optarem por produtos mais acessíveis. “Isso alterou nosso mix de produtos, mas não afetou o volume de produção.”
“A Planalto decidiu absorver parte desse aumento, o que gerou uma elevação considerável nos custos de produção”, explicou Weiand. Para não repassar toda a alta ao consumidor final, a empresa revisou outros custos para manter a competitividade sem alterar a receita do chocolate.
Weiand estima crescimento nas vendas em comparação com 2024. “Apesar dos ajustes nos preços, o apelo turístico e a diversidade de opções ajudarão a manter o fluxo de clientes e o ticket médio.”
Além da alta do cacau, as indústrias chocolateiras de Gramado sofreram um impacto direto com as restrições causadas pela tragédia climática que assolou o Rio Grande do Sul em maio.
Com o fechamento do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, após as enchentes, o turismo em Gramado ficou dependente do Aeroporto de Caxias do Sul e da Base Aérea de Canoas, ambos com capacidade muito inferior. O aeroporto só reabriu para voos comerciais no dia 21 de outubro, a tempo da retomada do turismo no Natal.
O presidente do Sindtur (Sindicato da Hotelaria, Restaurantes, Bares, Parques, Museus e Similares da Região das Hortênsias), Cláudio Souza, projeta que os hotéis da cidade devem se aproximar da lotação máxima no período. “Hoje, estamos com 52%. Nesse ritmo, chegaremos a 90% ou mais”, disse.
Segundo Souza, a expectativa do setor turístico é alta. “A Páscoa marcará nossa retomada de forma equilibrada por alguns meses. Dessa forma, teremos uma recuperação linear e plena do setor.”
Souza também afirmou que a alta do cacau não influenciou os preços em Gramado. “Todo o trade turístico manteve os valores normais para o período”, disse.
As vendas de chocolate artesanal devem ganhar um novo impulso na sexta-feira (28) com a abertura da ChocoPáscoa Gramado, evento que espera atrair um público de mais de 700 mil pessoas até 21 de abril. Além disso, se esperam bons números de vendas em lojas e franquias de chocolates de Gramado em outras regiões do estado e do país.
Segundo a Achoco, o setor chocolateiro emprega cerca de 2.000 pessoas, direta e indiretamente, incluindo fábricas, lojas, parques e prestadores de serviços. O número representa aproximadamente 5% da população de Gramado.
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