Entre 2019 e 2024, o volume de desinformação sobre o TEA (transtorno do espectro autista) cresceu 15.000% em grupos conspiratórios do Telegram na América Latina e Caribe. Durante o período pandêmico, entre 2020 e 2021, esse aumento foi de 635%, informa a pesquisa “Desinformação sobre autismo na América Latina e no Caribe”, feita pela FGV e pela Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas.
Para Ergon Cugler, autista, pesquisador e coordenador do trabalho, a crise sanitária criou uma demanda intensa por explicações em um ambiente de baixa confiança institucional. “Foi nesse vácuo que comunidades conspiratórias cresceram e passaram a associar o autismo, de forma infundada, a vacinas, ondas de rádio, alimentação industrial e outras pseudocausas”, diz.
O levantamento analisou 47,2 mil conteúdos conspiratórios sobre o autismo no aplicativo entre 2015 e 2025. Desses, 22 mil estão concentrados no Brasil, o que representa 46% de toda a desinformação sobre o espectro disseminado na América Latina e Caribe.
A maioria desses conteúdos enganosos estão contidos em comunidades anti-vacina, de conspirações gerais sem um foco específico, grupos da Nova Ordem Mundial e de medicamentos off label —remédios utilizados para fins diferentes daqueles descritos na bula.
Cugler explica que existe um mecanismo por trás dessa disseminação. Por atuarem como “bolha de reforço”, essas comunidades validam uma visão pré-estabelecida pelos membros, que compartilham as mesmas ideias. Também, abusam da linguagem científica e usam termos técnicos fora de contexto para dar uma aparência de credibilidade às teorias. Por último, utilizam técnicas de marketing digital ao construírem uma narrativa e oferecerem uma solução “milagrosa”.
“Em muitos casos, o mesmo perfil que espalha desinformação também lucra com a venda dessas soluções, o que mostra uma engrenagem organizada de exploração da desinformação como negócio”, diz Cugler.
Nessas comunidades, foram encontradas mais de 150 falsas causas do autismo e 150 falsas curas. Dentre as causas citadas, estão a radiação das redes 5G, água de torneira, ingestão de Doritos, vacinas, parasitas e as “chemtrails” — trilhas brancas deixadas no céu quando um avião passa.
Dentre as falsas curas, destacam-se bed meds — “camas milagrosas” com colchões capazes de curar enfermidades —, caldo de ossos, enemas, terapia com ozônio, serotonina e terapia com frequência Tesla (terapia com frequências eletromagnéticas).
“Cada nova mentira alimenta uma cadeia de produtos, serviços, consultas e terapias. A desinformação é a isca. O lucro, o verdadeiro objetivo”, diz Guilherme de Almeida, autista, pesquisador e presidente da Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas.
Em suas palavras, a desinformação virou um modelo de negócios ligados à oferta de curas milagrosas. “Esse discurso alimenta uma cultura de rejeição da neurodiversidade, na qual a existência autista é tolerada apenas enquanto promessa de melhora ou de ‘normalização’”.
Aponta, também, risco físico aos autistas e emocional às famílias, que são levadas a acreditar que “a culpa pela permanência do autismo é deles por não terem feito o “protocolo certo”, não terem acreditado o suficiente, não terem pagado pelo suplemento certo.”
A pesquisa também mostra que grupos terraplanistas, QAnon (conspiracionistas de extrema-direita) e anti-globalistas usam o autismo como peça de validação de suas teorias conspiratórias.
“O autismo entra como símbolo do ‘colapso social’ fabricado por uma suposta elite global. O aumento dos diagnósticos, por exemplo, é apresentado como ‘prova’ de que vacinas, alimentos industrializados ou tecnologias como o 5G estariam ‘danificando as crianças’”, explica Almeida.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Deixe um comentário