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Fotos revelam 150 anos de mudança climática nos EUA – 02/04/2025 – Ambiente


No decorrer de aproximadamente 50 quilômetros, seguimos sacolejando por uma estrada de terra no sudoeste do Wyoming, rumo a um horizonte recortado. É início de setembro, e os álamos estão começando a ficar amarelos. Enquanto subimos em direção às montanhas, o ar se torna mais frio. Em breve, haverá neve na estrada.

Jeff Munroe, professor de geologia da Faculdade de Middlebury, em Vermont, está nos levando ao passado. Nosso grupo pequeno de cientistas e aventureiros fará uma expedição pelos Montes Uinta para recriar uma série de fotos tiradas em 1870 por William Henry Jackson, fotógrafo que trabalhou para o Serviço Geológico dos Estados Unidos sob a direção do geólogo Ferdinand Vandeveer Hayden.

Jackson e Hayden documentaram a paisagem e os recursos naturais do Território do Wyoming para apoiar a expansão dos EUA. Vamos ver exatamente como o ambiente mudou.

A refotografia –capturar a mesma cena a partir do mesmo local depois de um intervalo de tempo– permite que os cientistas acompanhem as mudanças em longo prazo, como a elevação da linha das árvores alpinas, a erosão das margens e o recuo das geleiras, fenômenos difíceis de estudar de outra maneira.

A técnica pode ser mais desafiadora do que parece. Encontrar a localização geral é o primeiro obstáculo, já que o nome dos lugares muda com o tempo e as descrições podem estar desvinculadas das imagens históricas.

Depois, os pesquisadores precisam identificar as coordenadas exatas do posicionamento original do tripé, o que pode ser muito complicado em paisagens sujeitas a deslizamentos de rochas ou erosão. Pequenas variações no equipamento fotográfico também dificultam a criação de imagens idênticas, umas vez que as câmeras, os filmes e o tamanho das lentes mudam.

No nosso caso, o terreno difícil, agora combinado com um clima instável, significava que talvez nem conseguíssemos chegar à área geral, muito menos encontrar meia dúzia de locais exatos para colocar o tripé. E, embora alguns projetos de refotografia usem drones para mapear os locais, faremos todo o nosso trabalho a pé, como Jackson fez.

Munroe refotografou esses locais nos Uinta pela primeira vez em 2001. O que ele viu teria sido inimaginável no século XIX. Elementos da paisagem que Hayden descreveu como eternos, desde as “neves perpétuas” até o “limite superior” da linha das árvores, estavam mudando. No decorrer dos 131 anos que se passaram, o clima esquentou.

As mudanças ecológicas eram visíveis nas fotos novas de Munroe. As árvores preencheram os campos abertos e subiram as encostas das montanhas. As espécies de altitudes mais baixas se estabeleceram em terrenos mais altos. Toda essa transformação estava comprimindo as áreas alpinas e as espécies que dependem delas. Logo, já não teriam para onde ir.

Quando perguntei a Munroe, antes da viagem, por que ele pretendia refotografar esses locais novamente apenas 23 anos depois, ele explicou que o ritmo das mudanças climáticas está se acelerando: “Se eu tivesse observado essa paisagem entre 1950 e 1975, talvez tivesse mudado um pouco. Mas acho que, entre 2001 e 2024, ela vai ter mudado muito mais, no mesmo intervalo de tempo.”

Trabalhar a partir das fotos de Jackson permite que Munroe e seu colaborador, Townsend Peterson, professor de ecologia e biologia evolutiva da Universidade do Kansas, observem mais de 150 anos de mudanças sobrepostas aos milhões de anos de história geológica enterrados na paisagem.

Depois de uma hora de viagem, cruzamos a divisa com Utah. Munroe prevê que vamos sentir solidão aqui nos Uinta. No fim, veríamos apenas três outras pessoas durante toda a expedição.

Chegamos ao estacionamento. Na caçamba da caminhonete alugada por Munroe, duas estudantes de pós-graduação da Universidade do Kansas, Joanna Corimanya e Anahí Quezada, lutam com sua mochila pesada.

Além dos equipamentos de trilha, elas carregam câmeras e dispositivos de GPS para registrar as paisagens, que vão ser analisadas depois no laboratório de Peterson. Também se junta a nós Eric Glassco, ex-integrante das Forças Especiais do Exército, que começou a explorar e fotografar os Uinta depois de se aposentar.

Poucos minutos depois do início da caminhada, uma chuva forte começa a cair, liberando os aromas da floresta. Enquanto fechamos nosso casaco impermeável, Glassco nos conta que, na semana anterior, sua barraca foi destruída por granizos do tamanho de amendoins nos Uinta.

Esse é um lugar de extremos. A cordilheira, que se estende de leste a oeste, tem uma área vasta de terrenos elevados ininterruptos, incluindo pelo menos 19 picos com mais de 3.960 metros. As mudanças de temperatura e as tempestades chegam de repente, e a paisagem oferece poucas opções de abrigo.

Subimos uma série de curvas íngremes e depois atravessamos um trecho de cascalho avermelhado. Munroe explica que essa é a morena lateral, acúmulo de detritos que a geleira antiga recolheu e depositou em sua margem. Continuamos subindo e entramos na Área Selvagem das Montanhas Altas Uinta, região administrada pelas Florestas Nacionais Wasatch-Cache e Ashley. A partir desse ponto, nenhum equipamento mecanizado ou veículo motorizado é permitido.

A aproximadamente 3.350 metros de altitude, nosso grupo chega a um amplo platô de gramíneas amareladas e baixas. Pontilhado com grupos esparsos de arbustos e árvores atrofiadas, este é o início da linha das árvores, acima da qual elas não conseguem crescer.

Nós nos reunimos sob uma lona para ferver água para o jantar. Relâmpagos rasgam a floresta. Olho ao redor, apreensiva, mas Munroe mantém a calma; ele estima que o raio caiu a cerca de 400 metros de distância. Várias tempestades passam pelo acampamento durante a noite. Acordo e vejo minha barraca parecendo roupa molhada em um varal, mas, por dentro, ainda estou seca e aquecida.

Depois do café da manhã, arrumamos nossas coisas e voltamos para a trilha, onde juncos-de-olhos-escuros estão cantando nos arbustos. Munroe acredita que a expedição de Hayden pode ter passado por aqui apenas alguns dias depois de nós, em setembro de 1870.

Deste ponto, conseguimos avistar o Lago Bald, onde vamos montar nosso próximo acampamento. Ao fundo, a clássica vista dos Uinta começa a se revelar, destacando o Passo Gunsight e o Pico Kings, ponto mais alto de Utah, com 4.125 metros.

Como nuvens espessas estão voltando a se formar, descemos rapidamente, filtramos a água gelada do lago e montamos o acampamento antes de seguir para nosso primeiro ponto de fotos, o Lago Bald.

A foto de Jackson mostra três homens sentados no primeiro plano, usando chapéu e casaco de lã. É difícil fazer com que a paisagem atual se encaixe na imagem impressa que Corimanya e Quezada trouxeram. O chão gramado onde os colegas de Jackson posaram agora é um emaranhado de árvores.

Depois de terminar a foto do Lago Bald, atravessamos a tundra rumo ao Red Castle, montanha que a equipe de Hayden descreveu como uma imensa “igreja gótica” de rocha arroxeada.

A paisagem é diferente de tudo que já vi antes. Estou surpresa até mesmo com a descrição dela como “tundra”, termo que só ouvi aplicado a regiões árticas. Ainda estamos tentando encontrar o primeiro ponto para o tripé quando um vento gélido atravessa a planície, espalhando neve úmida sobre nosso casaco.

No nosso último dia completo nas montanhas, partimos em busca de mais dois pontos fotográficos. As coordenadas de GPS salvas por Munroe nos levam para fora da trilha, atravessando o planalto e depois descendo uma encosta. Perto da fronteira de uma floresta na linha das árvores, passamos por vários pequenos pinheiros-da-praia. “Estamos descendo para a vanguarda. Elas avançam como uma onda”, diz Munroe, referindo-se às árvores.

Jackson observou em 1870 que suas fotos foram tiradas no “limite superior da vegetação arbórea”. Agora, os pinheiros-da-praia, que antes não cresciam tão alto nos Uinta, estão se estabelecendo acima da antiga linha das árvores. A expansão do alcance dessa espécie indica mudanças associadas ao aquecimento do clima, incluindo as temperaturas noturnas mais altas e menos dias de congelamento intenso.

Munroe segue imerso em suas lembranças, guiado por um mapa mental, uma vez que a localização do GPS não está completamente correta. Ofereço-me para mostrar a ele uma cópia da imagem no meu celular, mas ele não precisa.

Corimanya e Quezada tiram algumas fotos, sabendo que, ao menos, conseguimos corresponder ao contorno do horizonte. De volta ao laboratório com Peterson, eles vão sobrepor as fotos, alinhando as imagens com as coordenadas de GPS conhecidas.

Corimanya descreve o processo como “puxar um fio” através das camadas. A composição final vai permitir medir a altura da linha das árvores e a densidade da floresta em comparação com as imagens históricas.

Munroe continua andando em círculos, procurando uma visão melhor do passado. Quando avista uma árvore familiar, o restante da paisagem se encaixa. Ali está a rocha plana na borda do precipício; aqui está o emaranhado de árvores baixas, agora muito maiores. Dou um passo para trás, olho para o chão e noto uma pilha de pedras. Munroe se lembra de ter construído um marco nesse local há 23 anos.

Ele se pergunta em voz alta: “Você já tinha nascido quando fiz esse marco?” Quezada tinha quatro anos e vivia no Equador. Glassco ingressou nas Forças Especiais naquele ano. Eu estava na faculdade, estudando na França. Era um mundo distante para todos nós. E, no entanto, aqui estamos juntos agora, observando essa paisagem milenar se transformar a uma velocidade perceptível até na perspectiva humana.

Hayden, o geólogo responsável pela expedição de 1870, detalhou os recursos naturais abundantes da região no relatório oficial publicado depois de seu retorno a Washington, D.C. Prometeu “milhões de pés de madeira” para a ferrovia, além de pastagens e abundância de água para a irrigação de lavouras. Sua missão era tornar esse lugar amplamente conhecido e acessível nos âmbitos científico, econômico e cultural.

O grupo de Hayden foi a vanguarda, a onda crescente de sua época. Seu trabalho impulsionou transformações imensas, incluindo o assentamento dos brancos e o deslocamento violento dos povos indígenas, a expansão da ferrovia, a pecuária, a agricultura e a mineração.

Todas essas mudanças estão ligadas aos efeitos em longo prazo que testemunhamos hoje –o aquecimento do clima e o avanço das árvores na zona alpina.

Mas as fotos históricas também têm um grande valor. “Os cientistas podem ficar muito empolgados com seus dados, mas sempre há ressalvas, notas de rodapé e ambiguidades”, Munroe me disse. Para quem não é especialista, os dados podem ser complicados de uma maneira que a fotografia não é, segundo ele, e os pares de fotos contam uma história –”sobre como os humanos vêm, há muito tempo, alterando o clima, a paisagem, os ecossistemas e lidando com as consequências”.

Algumas semanas depois, Corimanya, Quezada, Peterson e eu nos reunimos em uma videochamada pelo Zoom para discutir os resultados preliminares. No Lago Bald, uma das linhas das árvores se manteve extremamente estável, subindo menos de um metro entre 1870 e 2001. Mas, desde 2001, essa mesma linha subiu impressionantes 65 metros.

Esse avanço varia entre os locais em razão de fatores como a inclinação do terreno, a exposição ao sol e a qualidade do solo; nem todos os pontos registraram aumentos tão expressivos. Ainda assim, o grupo constatou que, de modo geral, as linhas das árvores nos Uinta estão subindo.

Em um local próximo do Red Castle, restam apenas cerca de 80 metros verticais de tundra acima da linha das árvores, que avançou a uma taxa de quase um metro e meio por ano entre 2001 e 2024. A perda da tundra significaria o desaparecimento de espécies como as marmotas e as aves dos gêneros Lagopus e Leucosticte, todas adaptadas a esse ambiente único.

Peterson esclarece que seu grupo não está desenvolvendo soluções de conservação: “O que estamos fazendo é levantando o sinal de alerta.” Eles pretendem usar a refotografia para identificar áreas que passam por mudanças rápidas, nos Uinta e em outras partes do mundo.

Estar na tundra com as fotos de Jackson em mãos era como espiar o passado. Ao compararmos o antes e o agora, as nuvens escuras do futuro pareciam se formar no horizonte.



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