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IA x Studio Ghibli: vale tudo na geração de imagens? – 03/04/2025 – Educação


Se você usou as redes sociais na última semana, não pôde deixar de ver memes, imagens de celebridades, recriação de cenas históricas, selfies e mais todo tipo de imagem no estilo de um dos mais amados estúdios de animação da nossa era: o Studio Ghibli, fundado em 1985 por Hayao Miyazaki, Isao Takahata e Toshio Suzuki, e responsável por ícones do gênero como “A Viagem de Chihiro” (2001) e “O Menino e a Garça” (2023) —dois filmes que renderam o Oscar a seu diretor Miyazaki.

A trend surgiu quando a Open AI, proprietária do ChatGPT, incluiu a geração nativa de imagens no modelo avançado da ferramenta, o GPT-4o. Nessa atualização, imagens são tratadas como linguagem e, assim como faz com textos, a IA é capaz de reconhecer o contexto para fazer previsões sobre o que inserir na resposta.

Os usuários rapidamente entenderam que o estúdio conhecido por seu trabalho detalhista e cuidadoso, cujas cenas podem levar mais de um ano para serem animadas, agora pode ter o seu estilo emulado em poucos cliques. E mais: para qualquer tipo de uso, pois a ferramenta não bloqueia a geração de conteúdo nocivo. Assim, a estética até então associada a um repertório cuja temática é a delicadeza das relações humanas e o respeito à natureza, invadiu a internet não só com avatares encantadores, mas também com cenas violentas e ofensivas —como a postada pela Casa Branca, que retrata a detenção de uma imigrante.

Não é a primeira vez que algo assim acontece. Já vimos a febre de geração de imagens no estilo Pixar e Simpsons, por exemplo. Mas o salto tecnológico possibilitado por essa nova forma de converter comandos em imagens gera muitos questionamentos. O primeiro e mais evidente é sobre a propriedade intelectual. As plataformas não permitem que se imite imagens de artistas vivos, mas as leis de copyright não protegem estilos ou gêneros, apenas suas expressões específicas, como uma determinada obra.

O problema é quando um conjunto particular de elementos está fortemente associado a um determinado artista, a ponto de se constituir em sua identidade. Replicar esse estilo livremente com IA pode desvalorizar a sua obra estética e financeiramente.

Miyazaki, que até aqui não se pronunciou, não é fã dessa tecnologia —em um vídeo de 2016, ele a descreve como um “insulto à própria vida” e declara que jamais incorporaria a IA ao seu trabalho. E aí reside o segundo problema: codificar como mero “estilo” e reproduzir o trabalho de um artista é também uma dissonância ideológica —um embate que parte de uma afronta ao próprio processo e de uma demonstração de poder das plataformas.

Outro ponto: a trend decolou porque a estética Ghibli tem um grande apelo afetivo. “Engarrafar” essa experiência fez com que o ChatGPT ganhasse, no dia 31 de março, um milhão de usuários em uma hora. O que a plataforma também ganha com isso é o acesso a milhares de novos rostos para treinar seus modelos de IA, burlando as leis que protegem os indivíduos de possíveis riscos, uma vez que as imagens foram cedidas voluntariamente.

A pegada ambiental da geração de imagens por IA, já sabemos, é enorme; o processamento necessário para gerar uma imagem consome uma quantidade significativa de água e energia. Precisamos nos perguntar se realmente devemos contribuir para esse gasto com um uso frívolo, como participar de uma trend. Sem falar, é claro, na padronização estética que essas tecnologias promovem, reduzindo o nosso universo imagético a poucos estilos predominantes em culturas hegemônicas, e apagando grande parte da diversidade de representações visuais que a humanidade é capaz de produzir —e de culturas também.

Não há como negar o potencial criativo dessa tecnologia. Devemos sim usá-la para nos expressar criativamente, imaginar mundos e visualizar lugares e tempos. Mas, embora acessível, sedutora e divertida, a IA generativa não existe no vácuo, e sim numa teia de relações sociais, econômicas e de poder. É preciso, sempre, fazer uso crítico dela, refletindo sobre seus impactos, valores e interesses.



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