Após seis anos de uma crise sem precedentes na indústria aeroespacial, a Boeing começa a enxergar um fim para seu inferno astral. Um choque de gestão interna, retomada de vendas e uma mãozona de Donald Trump na área militar sugerem um saída do atoleiro para a gigante americana.
Desde que as autoridades aeronáuticas colocaram no chão a frota do avião com o maior número de encomendas da história, o 737 Max, em março de 2019, a lista de problemas da Boeing multiplicou-se e gestou um caso único de crise reputacional. Suas ações hoje valem menos do que a metade de antes do tombo.
Ao erro do software que causou a morte de 346 pessoas em dois acidentes com o Max foram somadas descobertas de problemas de qualidade e segurança em processos produtivos, atrasos em programas de aviões-tanque e do novo Air Force One, chegando até o vexame de ver a rival SpaceX ter de buscar os astronautas que sua primeira cápsula não pôde trazer de volta do espaço.
De quebra, a pandemia da Covid-19 bagunçou o mercado e até hoje afeta as cadeias produtivas, e a compra da área comercial da brasileira Embraer, que renovaria a capacidade de engenharia da empresa, fracassou em 2020 e virou uma disputa só resolvido no ano passado.
De 2019 para cá, a crise derrubou dois presidentes da empresa. O atual, Kelly Ortberg, assumiu em agosto de 2024 enquanto a Boeing lidava novamente com uma questão envolvendo o Max, no caso a falta de parafusos para fixar um tampão de fuselagem, que levou quase a uma tragédia no ar sobre os EUA.
Ele colocou a retomada da reputação que transformou Boeing em sinônimo de avião durante muitas décadas como prioridade, promovendo revisão de processos e a requalificação da força de trabalho da empresa —um colosso com 320 mil funcionários, 150 mil deles nos EUA.
O ano passado foi de pausa, com um dos piores desempenhos em entregas desde que o consórcio europeu Airbus passou a desafiar os americanos, nos anos 1970, com 348 novos aviões ante 766 dos rivais. Pior que isso só em 2020, mas aí é preciso debitar não só da crise do Max, mas da pandemia.
Não é um caminho rápido ou fácil. Mas em janeiro e fevereiro, pela primeira vez desde 2023, a Boeing entregou mais aviões que a arquirrival europeia: 89 ante 65 aeronaves rivais.
Na quarta retrasada (19), seu executivo-chefe da área financeira, Brian West, anunciou a investidores que a situação de fluxo da caixa da empresa estava se normalizando após anos de dificuldades. Dois dias depois, foi a vez do presidente americano dar as boas novas.
Trump anunciou que a Boeing foi selecionada para construir o futuro caça de sexta geração do país, que irá substituir o F-22 Raptor —fabricado pela rival Lockheed Martin, derrotada na competição atual. O F-47, adulação a Trump, o 47º presidente dos Estados Unidos, deverá render ao menos US$ 20 bilhões inicialmente.
O mercado também espera que Trump anuncie a qualquer momento a escolha da Boeing para produzir o modelo de sexta geração da Marinha, que é operado em porta-aviões. Nessa licitação, a empesa está aliada à Northrop Grumman e é competidora única, dado que a Lockheed deixou o páreo em fevereiro.
Questionada pela Folha sobre o momento, a Boeing buscou demonstrar cautela. “Nosso foco total é tomar ações abrangentes para fortalecer a segurança e a qualidade na Boeing. Vamos nos concentrar em cada próximo avião e garantir todos os padrões que temos, todos os padrões que nosso regulador tem e que nossos clientes exigem”, disse a empresa, em nota.
Um sinal do gradualismo pretendido por Ortberg foi visto durante a greve de dois meses de 33 mil montadores da empresa. Em vez de retomada imediata, a força de trabalho recebeu novo treinamento. Seu ritmo de produção ainda não foi acelerado, mantido em 50 aviões em fabricação a cada mês, enquanto os europeus marcam 70.
“Mudança leva tempo e como nossa cultura é tão importante, queremos fazer isso direito. Mais de 82% de vocês responderam à nossa pesquisa com os empregados. Nas próximas semanas, vamos absorver esse retorno, e no próximo mês vamos compartilhar nossos novos valores”, disse Ortberg em e-mail enviado aos funcionários da Boeing na quinta (27).
Desde a virada do ano, a empresa também viu um aumento nos pedidos de novas aeronaves. A turca Pegasus se disse interessada em 200 Max, enquanto a a Malaysia encomendou 60. Também na quinta, a Korean assinou contrato para comprar 50 jatos de grande capacidade, dos modelos 787 e o novo 777-9.
Este último é um dos aviões que poderá sair da lista de problemas da Boeing, dado os atrasos em seu desenvolvimento. Previsto para voar comercialmente em 2020, ele só deve entrar em operação com a Lufthansa no ano que vem.
Os desafios na área militar são ainda mais complexos. Boa parte da “expertise” da Boeing com caças veio com a compra de um fabricante tradicional desse tipo de avião, a McDonnel Douglas, um negócio polêmico de 1997. Seu único projeto novo desde então foi o treinador T-7, com a sueca Saab, que enfrentou atrasos e não envolve o salto tecnológico ora proposto do F-47.
Recentemente, contratos militares sofreram atrasos e o avião de reabastecimento KC-46 está com a frota de 89 aparelhos sendo vistoriada devido ao surgimento de rachaduras em sua fuselagem. “Estamos fazendo progressos nos programas que nos desafiaram nos últimos anos e reduzindo riscos”, comentou a Boeing.
Segundo o ranking mais recente do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, a Boeing é a quarta maior empresa de defesa do mundo, com receita de US$ 31 bilhões no setor em 2023. Isso significa 40% de sua receita total.
Outro problema para a Boeing pode sair da mesma mesa que lhe deu os contratos de caças: a guerra tarifária de Trump. Consultorias estimam que será inevitável o impacto no preço de seus aviões, dados os insumos importados vitais para a produção.
Questionada, a empresa disse: “Estamos monitorando os desenvolvimentos nas tarifas de perto e avaliando seu possível impacto”. A Boeing tem 6.238 aviões encomendados, quase US$ 500 bilhões em vendas potenciais, enquanto a Airbus soma 8.684.
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