A ofensiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para retirar financiamento público de universidades atinge parte das instituições de ensino superior de mais prestígio do país. Quatro das oito integrantes do grupo de elite apelidado de Ivy League perderam fundos federais ou estão em vias de perdê-lo: Columbia, Harvard, Princeton e Pensilvânia, todas localizadas na Costa Leste.
As medidas do governo se baseiam em grande parte na acusação de que essas universidades não fizeram o suficiente para impedir protestos pró-Palestina no campus. Alinhado a Israel, Trump diz que as manifestações são antissemitas e que, portanto, contrariam a sua política.
A primeira universidade da Ivy League afetada foi Columbia, em Nova York, palco de grandes manifestações ainda durante a gestão de Joe Biden. O governo retirou US$ 400 milhões (R$ 5,6 bilhões) em fundos e contratos federais como represália.
Veio em seguida a Universidade da Pensilvânia, que teve US$ 175 milhões (R$ 980 milhões) suspensos. Nesse caso, não por antissemitismo, e sim pela acusação de ter permitido que uma aluna transgênero participasse de seu time de natação. Ações voltadas para restringir direitos de pessoas trans têm sido recorrentes sob Trump.
Já Harvard, a universidade mais conhecida do país, em Massachusetts, também se tornou alvo por suposto antissemitismo. A Casa Branca anunciou que está revisando US$ 9 bilhões (R$ 50,4 bilhões) de seus fundos públicos.
A investida mais recente ocorreu na terça-feira (1º), quando o reitor da Universidade de Princeton afirmou ter sido notificado de que a instituição perdeu “diversas dezenas” de fundos. O valor ainda não foi comunicado.
Por ora, as demais integrantes da Ivy League —Brown, Cornell, Dartmouth e Yale— não foram afetadas por cortes de financiamento.
Os repasses públicos são essenciais para o ensino superior nos EUA, que movimenta bilhões de dólares. Segundo um cálculo feito pela agência de notícias Associated Press, fundos e contratos federais representam cerca de 10% do orçamento da maior parte das universidades ameaçadas por Trump.
Para algumas delas, o valor chega a quase metade. É o caso da Johns Hopkins, em Maryland, que recebeu US$ 4 bilhões (R$ 22,4 bilhões) do governo no ano fiscal de 2022-2023 —o que representa 40% de seu orçamento total.
O dinheiro público ajuda a manter, também, alunos de baixa renda que não conseguiriam arcar sozinhos com os custos da faculdade. Um ano de graduação em Harvard custa hoje US$ 80 mil (quase R$ 450 mil), entre aulas e habitação. Outras instituições cobram valores semelhantes, num país em que é comum estudantes se endividarem.
É difícil dimensionar com precisão o impacto dos cortes, pois as universidades operam com um complexo sistema de fundos e doações. Os efeitos não são imediatos nem uniformes, já que a verba suspensa afeta determinadas áreas de pesquisa, como a medicina, mais do que outras.
O cerco do governo Trump ao ensino superior se insere em uma ideologia anti-intelectual que, apesar de ter marcado também seu primeiro mandato, está ainda mais em evidência no segundo. Trump foi eleito, em parte, com uma plataforma que exalta o senso comum da população e acusa a dita elite intelectual de ser um reduto da oposição.
Há alguma ironia nisso. Trump se formou em economia na Universidade da Pensilvânia, uma das instituições da Ivy League que perderam milhões de dólares em financiamento nas últimas semanas. Já seu vice, J. D. Vance, estudou direito em Yale, outra que faz parte do clube de ponta do ensino superior.
O caso de Vance, vindo de uma região empobrecida do país, é ainda mais irônico, uma vez que justamente o ensino superior permitiu sua ascensão. Ele narrou essa história no livro “Era Uma Vez Um Sonho”, de 2016, que virou filme e popularizou suas ideias —desenvolvidas na universidade.
A expectativa é que o desmonte do ensino avance nos próximos meses, o que pode afetar todo o sistema. Em março, o governo divulgou uma lista com 60 universidades sob investigação por suposto antissemitismo no campus. Estão na lista seis das oito da Ivy League (só Dartmouth e Pensilvânia ficaram de fora).
As medidas não afetam apenas as finanças das universidades. O governo Trump tem detido estudantes por manifestações contra Israel, um gesto visto como ameaça à liberdade de expressão. O caso emblemático é o do estudante sírio Mahmoud Khalil, de Columbia, mas há diversos outros. Como resultado, alunos estrangeiros têm vivido semanas de desespero, apagando suas redes sociais —e cogitando até deixar o país.
No caso de Columbia, cuja reitora interina renunciou após os cortes de Trump, a instabilidade no campus tem feito estudantes admitidos nos testes desistirem de se matricular, segundo reportagem do jornal New York Post. Na semana passada, alunos da escola de relações internacionais rasgaram seus diplomas em ato de protesto por considerarem que a diretoria da universidade tem se dobrado às investidas de Trump.
Nesse sentido, há cada vez menos vozes se opondo de maneira contundente ao governo. Uma delas é Christopher Eisgruber, reitor de Princeton. Em entrevista à Bloomberg, disse que não fará concessões ao governo por causa da perda de parte das verbas públicas. “Temos de ter a disposição de dizer não a um financiamento se isso vai restringir nossa capacidade de buscar a verdade.”
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