“Nosso país foi saqueado, pilhado, violado e espoliado por outras nações.” Foi assim, sem meias palavras, como lhe é peculiar, que Donald Trump anunciou um conjunto de tarifas recíprocas sobre produtos estrangeiros nesta quarta (2), inclusive taxando o Brasil no piso de 10%. Não se deve perder de vista o aspecto histórico da medida de Trump; mesmo uma figura mesquinhamente autocentrada como ele pode propiciar eventos que precisam ser lidos como uma cena em um filme de mudanças grandiloquentes.
As tarifas dos EUA não são apenas contra todos os países do globo, mas contra o mundo que os próprios EUA criaram após a Segunda Guerra, um mundo em que, segundo eles, mais comércio com menos barreiras tarifárias e não tarifárias levaria a maior prosperidade e, portanto, a mais paz, para eles e para os demais países. A Organização Mundial do Comércio —alguém ainda lembra que a OMC existe?— era a coroa dessa ordem mundial e hoje sua paralisia se deve justamente aos EUA, que não nomearem juízes para o painel de apelação.
No xadrez internacional, deve-se verificar como o mundo reagirá. O lado mais fraco vai buscar ou negociar com os irmãos ianques ou reduzir tarifas sobre produtos americanos ou um distensionamento. O Reino Unido, por exemplo, cogita reduzir o imposto sobre empresas de tecnologia americanas.
O lado mais forte, porém, pode buscar atitudes mais coercitivas —medidas de retaliação, tarifas sobre produtos ou empresas e bancos americanos específicos— ou diversificar parceiros comerciais. São as cartas que estão na mesa da Europa continental.
Com as tarifas de Trump, os EUA martelam o último prego no caixão da ordem mundial que eles mesmo criaram, apesar de supostos ganhos no curto prazo.
Os EUA passaram décadas no pós-Guerra intervindo em países ao redor do mundo, inclusive apoiando guerras e instaurando ditaduras, sob o argumento de que isso os tornaria mais livres.
Temos hoje, anos depois, a confirmação do que já suspeitávamos: para Trump, o resto do mundo é o resto, e apenas isso.
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